Encontro com Charles Eisenstein no Espaço Elos

O encontro com Charles Eisenstein foi muito especial em muitos sentidos, no sábado (26 de novembro). O fato de acontecer no Espaço Elos, mostra que estamos na direção certa, pois antes de estar pronto, cada vez mais vai tomando a forma do que sonhamos para o futuro: de um lugar aberto para o aprendizado junto com a comunidade.
Com a presença de mais de 50 pessoas, Eisenstein foi  muito generoso na sua fala, em especial na menção ao nosso trabalho, assim como ao desenhar o encontro deixou espaços para participação de todos. Além disso, todos puderam experimentar na prática a cultura da dádiva ao compartilhar um piquenique comunitário com colaboração de todos.
Dentro do espírito da cultura da dádiva, ele além de não cobrar nada da gente, deixou alguns exemplares do seu livro lançado no Brasil, “O Mundo Mais Bonito que Nossos Corações Sabem Ser Possível“, pela Palas Athena.
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Entender o que fazemos
O Elos tem um profundo entendimento daquilo É importante o entendimento sobre as coisas que estamos fazendo, mesmo porque só podemos fazer aquilo que podemos entender.
É muito difícil colocar certas coisas que vivi aqui em palavras, mas se fosse escolher uma, seria humildade. Muitas organizações chegam em algum lugar achando que sabe a solução, como se dissessem “Eu sei o que vocês precisam”. O que elas não entendem que este “aquilo que você precisa” é um reflexo sobre o que elas mesmas precisam.
Interessante notar que o Elos chega nas comunidades com uma pergunta simples (Quais os seus sonhos?) e uma visão apreciativa sobre as pessoas e os lugares.
Quando fomos visitar a Vila Progresso, tinha muitas crianças nas ruas, elas se sentiam seguras, elas conheciam todo mundo, e as ruas eram extensões das suas casas. Ou seja, a casa delas era muito maior do que qualquer milionário. Uma riqueza que está além do dinheiro pode comprar. A riqueza do pertencimento. Não se trata de uma vida perfeita, assim como a dos ricos também não é. Eles vivem com insegurança e medo.
O Elos não está cego para a pobreza, mas não está cego para as riquezas presentes nos lugares Muitas vezes as pessoas não sabem sobre suas riquezas, por isso é importante a pergunta “o que é bonito aqui?” (primeiro passo da Filosofia Elos – busca das belezas). A beleza é uma indicação do que pode ser construído no futuro. O desenvolvimento não deve ser uma imitação cega de um conhecimento externo, mas surgir de um chamado do coração, e agir conforme este chamado. Quando o coração entende profundamente estas questões, pois assim novas coisas podem surgir.
Eu sei que vocês já sabem disso, mas é bom quando uma pessoa de fora fala sobre isso.
Interser
É muito complexo falar sobre ativismo, o que é global, o que é local. O sentido de ser para tudo e para todos, ou seja, tudo o que acontece ao meu redor, está espelhado em mim. Se alguém faz algo de ruim para mim, que parte dessa pessoa representa em mim? Os relacionamentos complicados, como os políticos, os desafios que surgem em trabalhos comunitários, cada encontro fala de uma coisa sobre você. Mais do que interdependência, de um relacionamento condicional, ela é parte de mim, então, o que acontece a ele, em uma parte de mim também acontece.
Com a tecnologia entraram em campo forças extraordinárias de separação. Quando meu pai era jovem todas as crianças brincavam nas ruas, e todos se conheciam. Quando eu era jovem, isso acontecia, mas num grau muito menor. Hoje moro num lugar com mais de 500 famílias e todas estão dentro de casa, e não crianças nas ruas. O que vemos são as luzes azuladas das TVs. Na época do meu pai, quando fazia calor todos iam para as varandas, e as pessoas conversavam umas com as outras, hoje ficam em casa com ar-condicionado. Substituímos as comunidades por serviços, tudo o que você precisa, pode ser comprado ou pago.
No Taoismo quando algo chega ao seu extremo, faz algo nascer em direção oposta. A Internet está fazendo com que as coisas que eram invisíveis, visíveis. Por conta das câmeras dos celulares, segredos estão vindo para superfície. A separação nasce do segredo. Na nossa sociedade tudo é feito entre 4 paredes. A tecnologia que nos manteve separado, pode nos trazer de volta para vivermos juntos, porque ela está criando uma nova transparência, e podemos usar isso a nosso favor. Preservar os conhecimentos que estão desaparecendo, por exemplo.
Neste momento, Charles Eisenstein dividiu os participantes em grupos, para que eles partilhassem histórias de sabedoria popular com os outros.

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 Futuro precioso
Qual futuro que queremos? Pense em algo muito precioso que estamos perdendo. Este é um excelente indicativo de onde podemos chegar. Neste momento da história que tudo está ruindo, devemos estar aberto para tudo o que se rejeitou no passado. Xamãs, capoeira, conhecimentos populares, essas coisas que costumam dizer que é coisa do velho Brasil, digo, que o mundo precisa destas coisas, porque se vamos depender somente do que a tecnologia produziu, olha onde os Estados Unidos chegaram.
Cultura da Dádiva
Pagar por uma pizza não é uma dádiva, porque quando você dá dinheiro por uma pizza, você vai receber pizza. Na cultura da dádiva existe um tipo de relacionamento, onde não há o uso da coerção para ter algo de volta.
Atualmente você paga por remédios, para alguém cuidar das crianças, para se sentir seguro. Você não precisa mais da comunidade. A generosidade acontece quando as coisas circulam entre todos e acaba voltando para você, porque quando se enriquece a comunidade, todos se tornam ricos.
Hoje vivemos uma competição artificial. Não é que não existem terras suficientes ou frutas suficientes. O que não tem é dinheiro suficiente, porque o sistema criou uma ideia de emprestar dinheiro e cobrar juros altos por isso.  Então, isso beneficia um grupo pequeno de pessoas. É nesta ausência de medo do que falta, e o foco na abundância que faz o Elos criar coisas miraculosas.  Pessoas naturalmente gostam de doar, mas falta criar uma cultura e espaços para que isso aconteça.
O que vivi no Brasil me tocou profundamente . Eu vim para cá com algumas perguntas sem respostas. Não que alguma pessoa me desse estas respostas, mas porque a atmosfera daqui me permitiu alcançar estas respostas.

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