Um novo olhar para geração de renda

Por Henrique Bussacos*
O tema do trabalho e da geração de renda costuma ser abordado com uma perspectiva de escassez de recursos. A premissa é que comunidades de baixa renda tem poucos recursos para melhorar sua qualidade de vida.
O trabalho que realizo na Tekoha e as iniciativas do Instituto Elos trazem uma nova premissa: existe abundância de recursos na comunidade, o desafio é criar uma nova economia com modelos de negócios comunitários que gerem prosperidade e criem um fluxo positivo de riquezas.
A geração de renda deve ser um resultado natural ao empregarmos nosso trabalho e conhecimento em atividades demandadas pelas pessoas da nossa comunidade e da sociedade. O fluxo de renda pode estar bloqueado pela falta de um modelo de negócios que disponibilize nossos talentos para um público que precise dos nossos serviços e possa remunerar o trabalho. Muitas vezes, as comunidades empregam seus talentos em produtos e serviços pouco valorizados (serviço doméstico, panos de prato…), mas esses mesmos talentos (servir com qualidade e trabalhos artísticos) podem ser aplicados para produtos mais valorizados (guia de programas de ecopedagogia e brinquedos artesanais de alto padrão). Essas mudanças podem ser realizadas e já estão ocorrendo em várias comunidades.
Estamos realizando um projeto piloto com a comunidade da Juréia para colocar em prática a ideia da Re-evolução, que faz parte da metodologia do Elos. A intenção é desenvolvermos princípios, metodologias e ferramentas que possam ser úteis para outras comunidades criarem um ciclo de prosperidade. O trabalho é estruturado em três eixos: eixo sociocultural, socioambiental e socioeconômico, o desenvolvimento de cada um desses eixos está gerando conhecimento sobre os ativos da comunidade (conhecimento ambiental, técnicas de manejo sustentável, técnicas artesanais, atrativos para programas de ecopedagogia, entre outros).
A partir desses ativos estão sendo criados negócios comunitários como programas de ecopedagogia para escolas e público geral, marcenaria para confecção de brinquedos infantis de alto padrão, comercialização de madeira certificada, espaço para festas e eventos culturais. Esses negócios serão conectados para explorar as sinergias existentes e criar um ecossistema de negócios que nutrem as relações comunitárias, fortalecem a cultura local e preservam os recursos naturais da região.
Uma iniciativa interessante que pode ser somada ao processo da Juréia, citado acima, é o banco comunitário. Esta tecnologia social desenvolvida pelo Banco Palmas no Ceará demonstra, na prática, como as comunidades têm abundância de muitos recursos, mas muitas vezes o sistema econômico não permite que ela os utilize da melhor forma. Assumindo que as comunidades sempre possuem recursos, mas, muitas vezes, eles não permanecem na comunidade, o banco comunitário cria um sistema que incentiva a realização de gastos e investimentos na própria comunidade. A moeda local também fortalece a identidade da comunidade e eleva a autoestima, além dos benefícios econômicos de manter mais recursos dentro da comunidade.
Para trazer essa reflexão para o nosso dia-a-dia é importante avaliarmos onde estamos investindo os nossos recursos e como podemos beneficiar a redistribuição de renda ao comprarmos, viajarmos e investirmos com mais consciência.
*Henrique Bussacos (twitter @hbussacos) é co-fundador da Tekoha, do The Hub no Brasil e do Ekoa Café. Atua como sócio-fundador nessas organizações, realiza trabalhos com o Instituto Elos e contribui na criação de políticas públicas. Junto ao Instituto Elos e ao Núcleo Oikos está desenvolvendo um trabalho com a comunidade da Juréia (SP) para desenhar um modelo de desenvolvimento comunitário sustentável.

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