Antigo campo de futebol deu lugar à Escola Municipal José Carlos Azevedo Junior

Antes de haver paredes, quadra coberta e salas de aula, havia um campo aberto, de terra batida e traves improvisadas. Esse campo não tinha arquibancada, mas vivia cheio de torcedores: vizinhos, familiares e amigos que acompanhavam os jogos de crianças, adolescentes e adultos com o mesmo entusiasmo. O som das gargalhadas, das discussões sobre quem fez o gol mais bonito e das músicas improvisadas nas beiradas do campo faziam parte da vida cotidiana.
O futebol aqui nunca foi só jogo: foi escola de convivência. No calor da disputa, aprendia-se a respeitar regras, a se apoiar mutuamente e a entender que a vitória de um podia ser a alegria de todos. As tardes e fins de semana eram marcados pelo movimento de times locais, muitos com uniformes lavados e costurados à mão, e pela presença de figuras queridas que cuidavam para que cada partida fosse também um momento de união.
Com o tempo, a necessidade de mais espaços de formação trouxe mudanças. O campo deu lugar à escola, que passou a ocupar o espaço físico, levando para dentro de suas paredes o mesmo espírito comunitário que nascia na terra batida. Hoje, a quadra e os corredores guardam tanto as lições ensinadas nas carteiras quanto aquelas herdadas do jogo: a noção de que aprender é também conviver, sonhar e transformar a realidade à nossa volta.
Ainda assim, a memória do campo vive no imaginário do bairro. Muitos adultos que hoje acompanham os filhos à escola relembram com orgulho as histórias que protagonizaram ali: o campeonato vencido com gol no último minuto, a festa que se estendeu noite adentro, o mutirão para arrumar o gramado depois de uma enchente.
A troca de um espaço de futebol por um espaço de educação formal foi fruto de uma negociação com a Prefeitura entendendo que além do direito ao lazer, o Jardim São Manoel também tem direito à educação. A transformação e a bola, mesmo que simbólica, ainda segue rolando no espírito de quem cresceu aqui, mas com a convicção de que direitos não podem ser escolhidos e nem negociados, por isso a comunidade segue organizada cobrando quem é de direito o compromisso de construção de um novo campo de futebol no bairro.
A memória do futebol passa por todas as pessoas
Vânia
Filha de um técnico de futebol de várzea, cresceu ajudando nos bastidores: recolhendo garrafas para fazer gelo, lavando uniformes, aprendendo que o jogo não começa no apito inicial, mas no cuidado coletivo. Para ela, o futebol ensina que a comunidade se constrói na cooperação.

